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terça-feira, 7 de abril de 2020

Fiz essa carta pra você

Passou um tempo, até você resolver aparecer.
Como se tivéssemos marcado hora, a campainha tocou
e na mesma hora eu consegui sentir que era você.
Os pelinhos do braço arrepiaram.
Abri a porta, me abraçou apertado, e eu gelei. Fiquei imóvel.
Olhou no fundo dos meus olhos
e conseguiu perceber que não esperava que você apareceria agora.
Raros os momentos em que você me procurou,
as vezes você surgia na minha cabeça,
mas eu fazia de tudo pra essa memória ser passageira.
Porém não tem como evitar, você sabe onde me encontrar,
e você me invade de uma forma que me sinto sem nenhuma proteção.
Você me paralisa, me enfraquece, do jeito que só você sabe.
Você entrou, me arrastou para o quarto
e ficou comigo contando e criando histórias até eu pegar no sono.
Assim que abri os olhos, você ainda estava lá, imóvel,
me olhando profundamente, parece que gostava de me ver dormindo.
Você me desperta algo incontrolável,
com você eu perco o ponto de equilíbrio,
não sei mais onde é o começo e o fim. Não sei nem se existe fim.
Não quero mais falar com ninguém, a presença de ninguém.
A respiração fica mais pesada quando você tá em mim.
Eu não sei como você consegue mexer tanto comigo.
Não sei se você me faz mais mal do que bem.
Se eu tenho que te evitar ou aceitar o que você me oferece.
E se o que você me oferece é demais pra mim?!
Você me invade de reflexão e leva toda minha razão.
Essa noite quando eu fechar os olhos,
eu juro que vou tentar entender
que eu preciso de você tanto quanto você precisa de mim.

Fiz essa carta pra você.
Hoje você é poesia,
tristeza.



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Vazio

Já faz um tempo que não conversamos, desde quando você tentou me avisar que não estava tudo bem. Eu estava distraída, tentando carregar o mundo todo nas costas, inventando desculpas pros amigos, familiares, me mantendo ocupada. Eu devia ter notado naquele primeiro dia quando meu coração disparou, ou quando eu perdi o ar sem nem ter me movimentado. Foram tantos avisos. Você só queria me fazer parar e eu continuava não dando ouvidos. Pernas tremulas, sensação de prisão. Eu só queria que o dia acabasse pra eu deitar na minha cama e jorrar pelos olhos coisas que eu nunca deveria pensar e nem dizer pra mim mesma. Toda noite era a mesma tristeza, até que começou a se prolongar para o dia também. Eu não entendia, só aceitava aqueles pensamentos tão horríveis. Um vazio, uma inquietação. Até que notei os sinais, da pior forma possível, quando recebi aquele diagnóstico. Eu levei um susto, como alguém como eu poderia ser pega por algo tão diferente da minha natureza?! Como me deixei chegar a esse ponto?! Me senti arrasada, vi nos olhos de pessoas mais próximas a decepção. Mais tristeza. Tirei uns dias pra mim e me reservei. Não entendia o que aconteceu, mas aceitei. Foi um início difícil, até me adaptar ao novo que eu não esperava. Acalmar meu coração, acalmar você. Aquelas coisas horríveis que passavam pela minha cabeça antes pararam, mas ainda sentia um vazio. E aos poucos aprendi que eu devia me abrir mais pra ela. Ela poderia me ajudar. Foi muito difícil porque nunca fui de me abrir. Na roda de amigos eu era a que ouvia, a que ajudava e nunca a que era ouvida ou ajudada. Nunca pensei que precisaria de ajuda. O tempo foi passando e com ele levando as coisas ruins, fui me adaptando a nova rotina, fomos nos acalmando. Até que tudo voltou ao "normal", ao que era antes dos sinais. Que alivio. Finalmente passou, foram 6 meses ou mais, mas passou. Mas tem gente que não passa, tem gente que desiste. Eu lembro que a única coisa que eu queria era ficar em paz. Hoje eu te escuto mais, quero voltar a conversar mais com você. Obrigada por aguentar tudo que aguentou. Você é muito forte, tenho muito orgulho do que se tornou.